16 de julho de 2026
Cinco madeiras, cinco feitios
A teca não teme a chuva. O jacarandá nunca se repete. Escolher madeira é escolher quantos anos a peça vai durar — e quase ninguém o sabe na altura de escolher.

Escolher madeira não é escolher uma cor. Cada espécie tem um feitio: uma resiste à chuva e outra racha ao primeiro Verão; uma aceita ser dobrada e outra parte-se a tentar. Quem compra uma mesa está a escolher, sem saber, quantos anos ela vai durar.
Este texto é sobre isso — o que cada madeira sabe fazer, e onde é que ela é a resposta certa.
Teca

A teca carrega o próprio óleo. É esse óleo que a faz resistir à água, ao sol e aos insectos sem precisar de tratamento nenhum — e é por isso que os conveses dos barcos são de teca há séculos, não por moda.
Em Luanda, onde a humidade não dá tréguas, é a escolha óbvia para tudo o que vive lá fora: pérgolas, decks, portas exteriores. Com o tempo não apodrece — acinzenta. Quem gosta do cinza deixa-a estar. Quem prefere o mel, passa-lhe óleo uma vez por ano e ela volta.
A teca não precisa de ser protegida. Precisa de ser deixada em paz.
Jacarandá

Densa ao ponto de se sentir no braço quando se levanta uma peça. O jacarandá tem veios escuros que atravessam um fundo mais quente, e cada tábua é um desenho diferente — não há duas iguais.
Isso torna-o difícil de usar em série: encomendar seis cadeiras de jacarandá é encomendar seis peças que não combinam à risca. Por isso é a madeira de peças únicas — um tampo, uma frente de móvel, um instrumento. Onde a madeira é para ser o acontecimento e não o fundo.
Zebrano

Chama-se zebrano pela razão evidente: riscas escuras sobre fundo claro, paralelas, quase impressas. Vem da África ocidental — é madeira de casa.
Não se pode usar com timidez. Ou se assume o padrão e se lhe dá espaço, ou fica melhor noutro sítio. Num aparador ou numa porta de destaque dispensa qualquer outro ornamento: já tem desenho a mais para partilhar a atenção.
Sapele

O sapele é primo do mogno e vem da bacia do Congo. É a nossa madeira, no sentido literal — cresce aqui ao lado.
Escovar significa passar-lhe uma escova de aço que come a parte mole do veio e deixa a dura em relevo. O resultado sente-se com a mão antes de se ver: a superfície deixa de ser lisa e passa a ter textura. Tem uma vantagem prática que ninguém menciona nos catálogos — esconde marcas de uso melhor que qualquer verniz, porque a superfície já não é uniforme para começar.
Freixo queimado

Queima-se a superfície de propósito. A técnica é japonesa — yakisugi — e a lógica é contra-intuitiva: a camada carbonizada protege a madeira por baixo do fogo, dos insectos e da água.
O freixo tem veio aberto, e o fogo aprofunda-o. Fica quase preto, com brilho de carvão. E nenhuma peça sai igual à outra, porque a chama não se repete.
E o acabamento?
A espécie decide o que a madeira aguenta. O acabamento decide o que ela parece — e, às vezes, também o que aguenta.
- Fumado não é pintado. A madeira fecha-se numa câmara com amoníaco, que reage com os taninos dela própria e a escurece de dentro para fora. Um risco não revela madeira clara por baixo, porque não há tinta — há reacção.
- Caiado é o inverso: enche-se o veio com pigmento branco e limpa-se a superfície. O branco fica só dentro dos poros. Num ébano, o desenho aparece a claro sobre escuro, como um negativo.
- Brunido não leva verniz nem cera. Comprime-se a superfície com fricção até as fibras fecharem e a madeira brilhar sozinha. Envelhece bem porque não há camada nenhuma para descascar.
- Jateado é areia a alta pressão. Come o veio mole e deixa o duro em relevo — como a escova, mas mais fundo. Agarra a luz de lado e quase não mostra pó.
O que perguntar antes de encomendar
- Onde é que a peça vai viver? Lá fora, teca. Casa de banho, teca ou cedro. Sala, o que quiser.
- Quem a vai usar? Crianças e espaços comerciais pedem veio aberto — envelhecido, escovado, jateado. O uso desaparece na textura em vez de ficar à vista.
- Quer que envelheça ou que fique igual? A teca acinzenta, o mogno aprofunda, o carvalho quase não muda. Nenhuma das três está errada — mas convém saber ao que vai.
Se estiver indeciso, traga uma foto do espaço. É mais rápido do que descrever.